sexta-feira, 20 de setembro de 2019

AGORA DESABAFO EU - AGRADECIMENTOS - POR MARIA JOÃO MIL-HOMENS



Às vezes damos por nós a viver momentos para os quais nem sabíamos que estávamos preparados. 
Talvez isto nada tenha de taurino, mas tem de lições de vida, e essas são taurinas mais que tudo.
Já ouvi diversas vezes a expressão, julgo que de um fado ..." mais marradas dá a fome"... e sim, por vezes levamos cada marrada que dói mais que a de um toiro. 
Não poderá para já, o meu querido amigo Fernando Clemente dizer o mesmo, mas dirá com toda a certeza um dia destes. 
Para já, tudo o que vivi nesta última semana, já ninguém me tira, e se há coisas que nos marcam pela negativa, outras jamais esquecerei pela positiva.
A união e amizade que tantos mas tantos demonstram pelo Fernando, é de louvar, as visitas, os telefonemas, as mensagens, a tauromaquia tem muita corja, mas também tem o reverso da medalha, tem gente verdadeiramente boa. 
E não é reconhecimento, mas sim agradecimento, pois há atitudes que nos marcam para sempre e não podia deixar de vir aqui publicamente agradecer a quem me marcou e principalmente pela positiva. 
Naquela fatídica noite, passava exactamente 1 minuto da meia noite (olhei por acaso para o relógio, porque queria dar os parabéns ao Padilha que faria anos a partir da mesma meia-noite), já era dia 13, a tão famosa sexta-feira 13... e quando o Fernando saiu do meu lado, no burladero onde estava eu e a família Levesinho, disse o Rui Levesinho para o Fernando: ..." Fernando vá para trás de um burladero" e ele assentou com a cabeça e lá foi para a boca de um burladero. 

Quero aqui, não só defender o meu amigo, como a todos os meus colegas, há burladeros onde é  impossível assistir a uma corrida, quanto mais trabalhar! 
O burladero onde eu estava tinha um apoio para os pés, o que ajudava a ficar com uma altura simpática para trabalhar, mas todos os restantes não tem a mesma facilidade, por isso, à excepção de mim e do Arsénio (pelo que me recordo), todos os meus restantes colegas estariam ou à boca de um burladero ou mesmo fora deles, encostados à parede. O meu querido amigo Fernando, estava no sitio errado na hora errada e ponto final. Não há nada, mas mesmo nada a apontar nem a falar  nem reflexões sobre o assunto. 

Depois do sucedido, fui imediatamente à enfermaria da praça, onde já se encontravam alguns amigos preocupados com o estado do Fernando, recordo algumas caras, que me perdoem os restantes, mas a Lara Vicente, o Armando Jorge Teixeira e a Joana Prates de Menezes foram as caras que reti e o Ricardo Levesinho que estava mesmo à porta da enfermaria. Como não consegui ver o meu amigo, corri para fora da praça onde a porta da enfermaria estava aberta e já o esperava uma ambulância para o levar para o hospital do Barreiro, segundo apurei com o bombeiro que estava a preparar tudo. 
Entrei ou melhor, tentei entrar dentro da enfermaria, expliquei que o Fernando é meu amigo e eu preciso saber como ele está. Foi a minha voz que o chamou, e ouvi ao longe: ..."Maria está tudo bem, o Dr. já te conta tudo, a minha mala está nos curros"... expliquei-lhe que sabia, que ficasse tranquilo que tratava de tudo e ia imediatamente para o hospital,  e ele disse-me que não era preciso... imaginem!!! Um homem ferido daquela forma, sozinho e eu ia deixar o meu Amigo ir sozinho para o Hospital! Jamais! Não o faria a nenhum amigo meu, ou alguém que precisasse de auxilio, mas muito menos ao Fernando. 
E quando tudo terminou, arranjei tudo, meu e dele e lá ia eu perto da uma da manhã para o hospital do Barreiro... não sou médica nem enfermeira, não podia resolver grande coisa, mas a verdade é que os amigos são para estas coisas também e tenho a firme certeza que ele faria exactamente o mesmo por mim sem pestanejar! 
Quando o meu colega/amigo João Silva percebeu que iria sozinha, imediatamente se disponibilizou para ir comigo, eu agradeci e aceitei, pois não fazia a menor ideia onde era o hospital, vivo um bocadinho longe da zona e por isso felizmente não conheço nada de hospitais da margem sul. 
Lá fomos nós os dois, e pouco tempo depois juntou-se a nós a Sónia (esposa do João), o Arsénio nosso colega e amigo e o Bruno Lopes (embolador). A primeira coisa que o Fernando me pediu foi que não houvesse nada na net do sucedido, prometi-lhe que da minha parte iria cumprir o seu pedido, mas que não poderia prometer pelos restantes. E depois de vários exames e conversas com a equipe fantástica e atenciosa que estava no hospital do Barreiro, lá me informaram que o Fernando seria transferido.
Lá ficámos todos até que o nosso amigo fosse transferido para o Hospital da zona de residência.  Cheguei a casa pouco faltava para as 6h da manhã, estiquei as pernas no sofá, respirei fundo e devo ter fumado uns 5 cigarros... P#t@ de vida esta!!! 
Tomei um banho, bebi um cafézinho e fumei mais uns quantos cigarros. 
Fui buscar o meu marido e fomos buscar o carro do Fernando ao Campo Pequeno, onde tinha ficado estacionado quando na noite anterior o fui buscar e ao Miguel Alvarenga para irmos para a Moita, antes ainda bebi um café com o Miguel e arranquei para São José. 
Estava com a cabeça a mil... o Fernando estava a ser operado e nem o consegui ver, apenas ia sabendo através de um amigo o que se passava. (Obrigada Paulinho, tens sido incansável comigo).
Todos os dias à excepção de domingo que fui arejar a cabeça para Almeirim, vou dar um beijinho ao meu amigo, todos os dias lhe conto tudo o que quer saber, todos os dias vejo as mesmas caras amigas que tal como eu, não são médicos nem enfermeiros e lá estão a ajudar. 
Um grande beijinho para a Amélia e o João, o Sr. Joaquim Tapadas, o Carlos Calado, o Zé Santos, e todos os outros que não indo todos os dias ou quase todos os dias, vão mostrar que estão ali, que se lembram dele, e sermos lembrados é muito bom, sentir que gostam de nós, é mesmo muito bom, só quem nunca viveu algo semelhante não consegue entender. 
Desculpem a lenga-lenga, mas senti vontade de desabafar e de agradecer publicamente a quem merece de verdade. 
O Fernando vai recuperar e vai ultrapassar tudo isto se Deus quiser, vai voltar aos toiros que tanto ama e recordar para sempre o olho do toiro que esteve colado ao dele, memória que tem do sucedido. 
"Era tão lindo o toiro, perdido de manso, mas lindo" 
Coisas boas da nossa tauromaquia, são também estas amizades. 
Obrigada a todos.
Cada um transmite exactamente o que tem dentro de si. 




 
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