segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

CARTA DE SUSANA FIGUEIREDO PARA O SEU PAI - JOSÉ LUIS FIGUEIREDO

A Susana, é a menina do Zé e escreveu estas palavras sentidas ao seu Pai, o nosso Zé Luís. 
Tá visto que para além do feitio igual ao Pai, herdou também o seu dom para a escrita. 
Obrigada Susana pela partilha e muita fé e força para suportar a dor da ausência. 
Foto e texto- D. R. /Facebook Susana Figueiredo 





Decerto agora sim, sinto-me sózinha... Pois certamente serias aquele que nunca me viraria as costas.

Tenho um nó na garganta que me embarga as palavras... A dôr é desmedida.

Estou ainda incrédula, pela tua partida repentina... Não era pra ser assim pai. Não depois de tantas lutas.
Falámos umas horas antes da tua partida e disseste com a voz ofegante "Até amanhã filha, beijinhos aos meninos".

Ainda havia tanto para dizer, tanto para fazer. Tínhamos tanta coisa combinada.

O meu contador de histórias, o meu herói desmedido... O meu colo. O meu refilão.

Há menos de um mês á minha revelia telefonaste em tom de aviso a uma pessoa que me incomoda constantemente: "... Olha que ela, ainda têm pai!"

Sempre de peito aberto em minha defesa e dos teus.

E quando "chocávamos" por divergências de ideias... Uiiii! O dono da razão! Tão teimoso como eu... Até fazíamos faísca.
"Tens o feitiozinho do teu pai!" dizia a minha santa mãe, e eu retorquia "Ainda bem, pelo menos assim, ninguém me pisa".

Longe de ter tido uma infância dita normal... Mas decerto especial.

Nesse teu mundo que muitas vezes competia com o tempo em família.

Lembro-me de me sentar ao teu colo para ouvir as tuas histórias desde cedo... Não a do capuchinho vermelho e da Cinderela como as outras crianças... Mas as peripécias dos fuzileiros e dos forcados. E deliciava-me.

Não me mascaravas de princesa... Mas sim, de forcado.

No verão não era á praia que me levavas, mas a corridas de touros.

As tardes de lazer eram passadas nos treinos dos forcados... Os meus parques de diversão foram trocados por Lezirias.

Uma ida ao cinema era facilmente substituída por uma ida a uma tertúlia ou a uma casa de fados.

Até uma simples ida á feira às tuas cavalitas para andar nos carrosséis era uma aventura... Um caminho com paragens constantes porque conhecias gente sem fim e perdias-te nas conversas.

E cresci assim, nesse mundo tão teu e também fiz dele um pouco meu. E adorava.

Cedo me habituei a: "És filha do Zé Luís Figueiredo?"

Sim, sou... Aquela miúda pequena que descia a rua das largadas no cavalo do campino Figueiredo e que ia com o pai e o amigo Zé da Singer procurar no campo o toiro que tinha fugido nas largadas...
Que ia para o Aposento noites intermináveis com a Sá e o Fernando... E para o café da Londres até às tantas.
Aquela miúda que adorava andar no "carro com os cornos" e as cobras á solta do amigo Machinó.
Aquela miúda que fazia os piqueniques em família na Barroca, rodeada de toiros.
Aquela miúda que te aplaudia de pé a cada pega e por vezes te visitava no hospital e estreava o gesso com um desenho pitoresco.

Depois chegou a adolescência... Talvez a fase mais conturbada da nossa relação.
Sim, porque ser filha do Zé Luís aos 18 anos não foi pêra doce...

Toda a gente o conhecia, nomeadamente porteiros e seguranças de bares e discotecas.
Sentia-me na casa mais vigiada do país...
A primeira vez que fui ao Freiras Bar ouço uma voz familiar "Susana, o teu pai sabe que estás aqui?" era o meu querido Silvino e eu pensei... Nem aqui.

Rapazes pra se aproximarem de mim, nem que fosse pra conversar... Uiiii, tinham de ser corajosos.
Aquele homem com um simples olhar varria um Km. Como eu ficava fula.

Eu cresci e pouco mudou. Tu sempre a opinares e eu sempre a discordar.
Mas uma coisa é certa, foi sempre um amor desmedido.

Aprendi muito contigo e o orgulho de ser tua filha, ninguém mo tira, como penso que te orgulhavas de ser meu pai.

Vibravas com as minhas vitórias, como ninguém.

As coisas menos boas... Dáva-nos forte... Mas passava depressa.

E agora? Quem me vai dar na cabeça?
Parece que te estou a ouvir, de cada vez que puxava um cigarro: "Devia doer-te os dentes, cada vez que acendes um cigarro..." E reviravas os olhos e hiperventilavas.

Uns meses antes da tua doença, a minha vida tinha descambado, armei-me em forte e... Caí desamparada.
Ergueste-me, levantaste-me o queixo e disseste:"Não voltes a baixar a cabeça á vida! És minha filha e eu, estou aqui."

A promessa ficou feita e será sempre cumprida... Apesar de já não estares aqui. Sempre que precisar do teu socorro, vou erguer os olhos para cima e procurar-te.

O lugar do meu contador de histórias ficou vazio, mas ficam as memórias. ❤️

A ti Isabel, tu sabes adoro-te e o meu pai não poderia têr feito melhor escolha para companheira de vida e de luta.
Ser-te-ei sempre grata.
 
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