sábado, 9 de maio de 2020

PRIMEIRA ENTREVISTA DE ANTÓNIO JOÃO FERREIRA APÓS 8 MESES DE SILÊNCIO - POR SÓNIA BATISTA

Uma entrevista intimista, onde o matador fala da delicada noite de 23 de Agosto, dos medos, dos objetivos e também porque só agora deu a sua primeira entrevista...oito meses depois.
Entrevista por Sónia Batista e fotos de Mónica Mendes
Em nome do matador António João Ferreira 
Obrigado
Saudações Taurinas
António João Ferreira, Sónia Batista e Mónica Mendes




“Farás sempre e na medida, do possível, o que resulta impossível a qualquer um” Francis Wolff
Passaram oito meses desde a corrida dos matadores no Campo Pequeno, na qual António João Ferreira sofreu uma fratura tripla na cintura pélvica. Foram oito meses afastado do olhar do público, do meio taurino e da imprensa. Oito meses de recuperação e de autoanálise, com dois objetivos em mente… voltar a tourear um exemplar da Ganadaria Calejo Pires e voltar a sentir que está em perfeitas condições físicas, para continuar com a sua profissão…matador de touros… uma profissão que dá poucas oportunidades em Portugal, mas que nem isso diminuiu a vontade de António João Ferreira, viver aquilo que é, um toureiro, em toda a globalidade da palavra.
  Só agora resolvi falar, porque no meu entender, só os maestros têm matéria para falar e eu considero que ainda estou longe dessa tão importante categoria. 
Mantive-me em silêncio por considerar que só a minha muleta, deve falar por mim e por considerar que profissão, não deve perder o misticismo. 
Precisava também de voltar a tourear a ganadaria que me deixou durante um mês numa cama de Hospital e principalmente precisei, ver e sentir que ainda tenho muitos capítulos por escrever, nesta profissão que escolhi, mas que também me escolheu!
Toureio como sou e treino porque sinto necessidade de o fazer para estar bem com o meu corpo e com a minha mente. Tracei para mim mesmo um objetivo. Estar a 100% para tourear no Festival do Sobral em Abril e ai sim falar… com a minha muleta e para quem me quisesse ouvir… que voltei, voltei com as mesmas ganas com que entrei na noite de 23 de Agosto no Campo Pequeno e provar a mim mesmo, que continuo a reunir as mesmas capacidades físicas, mentais e artísticas…mas como esta situação de saúde pública, manteve em silêncio a minha muleta, acedi a deixar em palavras, a minha voz.
A corrida dos Matadores, no Campo Pequeno, foi uma corrida com grande responsabilidade, com muita divulgação nos meios de imprensa da especialidade e acima de tudo, com a pressão de ser o barómetro, sobre força do Toureio Apeado em Portugal. 
A nossa maior preocupação era a aderência ao Espetáculo. Mantive os meus treinos como sempre e entrei em praça com a mesma vontade com que sempre me apresentei. A única diferença, nessa noite, era o peso da responsabilidade. Era uma corrida só de matadores, na primeira Praça do Pais, quando todos sabemos que há poucas oportunidades para o toureio a pé em Portugal. Quando entrei em praça e vi que a casa estava bem composta, senti-me pleno e a minha vontade de tourear, ainda se tornou mais forte.

“Lidarás o teu adversário, seja qual for, sem te preocupares de ti mesmo: dos teus sentimentos, do teu sofrimento, da tua integridade física” –F.W.

Na lide do segundo touro, aquilo a que qualquer toureiro está exposto, aconteceu! Blanquito, da ganadaria Calejo Pires, o touro mais velho da corrida, com o número 91 e 574kg, investiu e provocou uma voltareta, com impressionante queda. António João Ferreira visivelmente afetado, decidiu seguir com a lide e tourear com um sofrimento notório, tanto no olhar como na dificuldade em manter-se de pé. 
Quando cai, senti logo que tinha sido algo grave, senti que tinha partido algo, não sabia era o quê... Senti uma dor em todo o corpo. Continuei a minha lide depois da voltareta, tal como fiz, quando levei a cornada em Sevilha. Eu toureio sempre até onde o meu corpo me deixa! Vou sempre até ao meu limite. Não pela verguenza torera, não para mostrar nada a ninguém, simplesmente porque sou uma pessoa que, o que começo termino!
Sou muito determinado e naquele momento não pensei na dor; não pensei em que poderia eventualmente agravar a lesão, apenas pensei em acabar aquilo que comecei. Fiz o que senti e o que me saiu de dentro, enquanto toureiro e enquanto pessoa.
Quando cheguei à enfermaria nem consegui identificar onde me doía, porque doía-me tudo...o primeiro sentimento que tive, foi pena, pena por ter levado a voltareta no momento em estava a conseguir cuajar o touro, que tinha o touro na mão e o público a reagir; o segundo sentimento foi medo, medo de não poder voltar a tourear!
A noite reuniu muitos fatores, que aumentaram o peso emocional da lesão. O bandarilheiro João Diogo Ferreira, irmão do matador, saiu como seu subalterno, o que impossibilitou de manter-se ao lado do irmão na enfermaria, obrigando-o a cumprir as responsabilidades profissionais na arena…e no dia seguinte João Ferreira, teria de estar em Espanha, para tourear sob ordens do matador espanhol Javier Castaño. A decisão de seguir para Espanha, teve mais peso no irmão do que no matador, já que António tinha bem vincado que quem vem para esta profissão, sabe os sacrifícios que se tem de fazer. O meu irmão João, por quem tenho o maior carinho e que é pessoa mais próxima que tenho, tinha de viajar nessa noite. Ele toureava em Espanha no dia seguinte…mas esta situação aconteceu porque tinha que acontecer! E nesta profissão, todos estamos preparados mentalmente para quando acontece. 
A família fica mais preocupada que nós, inclusive há momentos e pessoas dessa noite, das quais não me recordo, mas sei e mantenho esse agradecimento eterno por nesta situação, ter a minha família ao lado, a senhora ganadera Joana Rodrigues também sempre pendente e o Rui Bento, que para além de defender e acreditar desde o primeiro instante no cartel e no conceito da corrida, esteve sempre ao meu lado e pendente de todas as etapas necessárias à minha recuperação.
Como nessa noite, os inconvenientes não faltaram, o matador saiu da enfermaria da Praça do Campo Pequeno para o Hospital de Santa Maria, onde realizou vários exames e nessa mesma noite seguiu para o Hospital de Santarém, o que fez ainda alongar mais, uma noite que pareceu eterna. Tive de esperar muito tempo para saber se ia ser operado ou não…foi muito angustiante esse período de espera, porque o médico já me tinha dito que havendo operação, a recuperação seria muito mais complicada! Tive a sorte que devido às minhas condições físicas e peso, não ser necessária a operação, mas seguiu-se um mês imobilizado numa cama de hospital e considerável tempo de reabilitação.
Depois de saber o “preço” que teria de pagar, pelos percalços da profissão, António, sozinho, à noite pensava se iria conseguir voltar a tourear, com as capacidades de antes. Lembrava-me que o Cordobés teve que deixar de tourear por uma lesão destas. Tive sempre receio que esta lesão me condicionasse, porém com o facto de os médicos ficarem surpreendido com a rapidez da minha recuperação, consegui alento para as minhas dúvidas...depois na fisioterapia a minha força de vontade, fez-se ver e os resultados chegaram.
O processo de recuperação foi longo…passaram muitos dias até ser possível voltar a colocar-se à frente de uma rés brava. Confesso que moralmente vim-me abaixo, porque sou uma pessoa ativa e ver-me condicionado afetou-me…Comecei com fisioterapia, depois a tourear de salão, até que tentei pela primeira vez em Março, em Arruda dos Vinhos, exemplares da ganadaria Jorge de Carvalho, ainda assim a minha mente estava com os Calejo Pires. 
O meu objetivo era ir primeiramente tentar à ganadaria Calejo Pires, ganadaria do touro que me lesionou. Isso aconteceu posteriormente e assim arrumei todos os sentimentos que tinha dentro de mim. 
As tentas seguiram-se e hoje tentei por mais uma vez, na ganadaria Rosa Rodrigues, com as minhas capacidades plenas. 
Procuro praticar o toureio eterno e universal! Eu acredito que o público gosta de ver tourear com Pureza. Tourear com Pureza é seguir todos cânones do toureio, respeitar todos os tempos do toureio, ter postura toureira e conseguir meter o touro, com temple a passar junto ao corpo do toureiro. É isso que eu procuro conseguir no meu toureio e para continuar nesta profissão eu precisava, sentir que mantinha as mesmas capacidades. Precisava de me autoanalisar após a lesão.

“Serás sempre dono e senhor do teu adversário, da adversidade, de ti mesmo, das tuas palavras, dos teus gestos, das tuas reações, das tuas emoções”-F.W.

Esta incerteza, de quando regressarão as corridas de touros, devido ao COVID-19 mantem em suspenso o regresso de António João Ferreira, mas o matador continua a treinar, como sempre treinou, até porque considera que necessita treinar e tourear, para estar bem com ele mesmo. Espero que esta situação passe rápido, para o bem da Tauromaquia, de todos os profissionais da tauromaquia, da Economia em geral, para o bem de todos nós. Estou mentalizado e preparado para voltar. Devido a esta situação de saúde pública, perdi o festival do meu regresso, no Sobral em Abril, mas estou preparado para o meu reaparecimento, com a mesma entrega, a mesma vontade e as mesmas capacidades com que sempre me apresentei. Estou preparado fisicamente e emocionalmente para o meu regresso!


*As citações apresentadas como adorno a esta entrevista, são da autoria do Filosofo francês Francis Wolff- “Os Dez Mandamentos para ser Toureiro”

Texto: Sónia Batista
Fotos: Mónica Mendes

 
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